O terceiro pedido

janeiro 25, 2012

Quem dera eu pudesse me ver
Sempre pelos teus lindos olhos
Tão bondosos com minhas falhas

Que eu pudesse, também, me ouvir
Por teus receptivos ouvidos
Atentos às minhas palavras

Com os lindos lábios que tens
Beijar sorridente a mim mesmo

Tocar com a tua mão suave
Minha expressão tão castigada

Quem dera poder me abraçar
Com os teus braços tão macios

Que ainda pudesse, por fim
Me amar com o teu coração
Tão mais virtuoso que o meu


O homem bom

janeiro 20, 2012

Fez tudo com o mais puro dos corações
Esperou confiante seu final feliz
Naufragou com sorriso desesperador
Olhou com raiva para o céu, gritou: Senhor!
Fui bom e honesto, o que de tão errado fiz?
Responderam-lhe apenas raios e trovões.

A chuva não lavou suas incompreensões
A luz do céu não lhe iluminou o nariz
O som das trovoadas não tirou-lhe a dor
Nada, nada lhe fez ao mínimo supor
Que do êxito não é o coração que diz
Que intenção vale sempre menos que as ações


Popularidade

fevereiro 12, 2011

Eu estudava na escola mais cara do meu bairro, uma das melhores da cidade. Meu pai era funcionário de alto escalão de uma grande empresa – o que rendeu à família mudanças constantes de cidade e a mim, uma repetência. Sendo o mais velho da turma, cheguei antes na idade em que os meninos começam a se dividir entre os metidos a valentões e os tachados de covardes. As meninas podem ser populares extrovertidas ou esquisitas e ignoradas.

Sempre fui político, de boa movimentação entre os diversos grupos, o que me alçou à condição de valentão. Digo melhor: de boa aparência e habilidade nos esportes, eu era o líder dos valentões.

Havia um casal de recém-chegados à escola; ele um covarde, ela esquisita. Não passava uma semana sem que alguém articulasse uma brincadeira para expor um dos dois, quando não ambos, ao ridículo. Eu raramente participava, mas também não exercia minha liderança para poupá-los da situação. Eu era um déspota esclarecido: no meu reinado absoluto não existiam massacres.

Perto do fim daquele ano, encontrei esse casal fora da escola. Meu pai havia sido convidado por um amigo a passar o dia no clube e nos levou para aproveitar a piscina e as quadras. Este amigo de meu pai é pai do covarde. Ou da esquisita, não lembro. Fato é que estavam lá ambos.

A situação era surpreendente. Em poucos minutos, descobri que o covarde era no clube líder dos valentões. A esquisita era a mais popular e cobiçada. O garoto notou minha surpresa e veio até mim:

- Aqui as coisas são bem diferentes da escola, não?

Ele tinha razão. O garoto me superava em dois séculos de história política: era um democrata benquisto por todos, suas sugestões eram apoiadas com entusiasmo e suas opiniões ouvidas com sincero respeito. Na escola, eu só via de meus súditos temor reverencial. Diante de meu espanto, como quem acaba de vislumbrar o futuro e se sente ultrapassado, ele ainda completou:

- Para ser popular, você depende do povo.

A escola não era lugar para ele. O clube não era lugar para mim.


José Bonifácio de Andrada e Silva

agosto 30, 2010

“E viverás, Andrada!”
(Machado de Assis)

Ó filho dos outeirinhos santistas
Pelos teus injustamente esquecido;
Ó maior dos brasileiros, cientista,
Filósofo e militar aguerrido;

Ao povo, que teu exemplo persista
De homem probo e guerreiro destemido:
O primeiro dos abolicionistas,
O que fez de Bonaparte vencido.

Seja consciente ou ainda não,
Esse amor pátrio que no peito bate
Herdei da tua vida e dedicação,

De tua moral de grandioso quilate,
Que sem ti não existiria nação.
Não foi, pois, inútil o teu combate!


Antes de ser grande, ser pequeno

janeiro 15, 2010

O que fazer para melhorar o ensino no Brasil? Não sei. Primeiro, porque desconheço o ideal, o “bom ensino”, e também por não ter clara a estratégia correta para alcançá-lo.

Quando se trata de resolver grandes questões, é preciso começar por ensaios menores. Não se pode querer mudar todo o sistema de ensino brasileiro sem testar, antes, com algumas poucas escolas de variadas características. Antes ainda, testar em si mesmo: é educando a si mesmo que se começa. Não me posso crer capaz de resolver a educação do País se mal comecei a minha própria.

Se entendemos algo, mesmo em parte, devemos cuidar de testá-lo na prática, em pequenas aplicações. Por quê? Para confirmar ou melhorar o produto de nossas reflexões e, dessa forma, chegar a reflexõs mais profundas e confiáveis. A evolução do entendimento será claramente observada ao longo do tempo, conforme o vamos moldando à prática, utilizando o que já observamos de suas aplicações anteriores.

Por que ensaios pequenos? Porque os erros são minimizados. Evita-se, assim, uma catástrofe de grandes proporções. Este blog, leitor, é um pequeno ensaio. Por isso disse no começo que não fazia questão de muitos leitores.

Isso nos previne contra dois males:

1) A paralisação de nossas ações, por acreditarmos que é impossível agir enquanto não tivermos plenas certezas. Com o pouco que sabemos ou achamos que entendemos, já podemos fazer alguma coisa. Praticar é como chamar a realidade para julgar o fruto de nosso saber.

2) A paralisação de nossas reflexões, por acreditarmos que já sabemos tudo e, se nossos atos dão errado, a culpa é dos outros. Não necessariamente verbalizamos ou mentalizamos isso, mas não raro agimos desse modo sem perceber.

Portanto, para um problema grande, é muito mais lógico partir de soluções pequenas, que vão crescendo com as práticas e ensaios, do que partir impacientemente para trabalhos muito superiores ao nosso tamanho.


Sobre os escritos passados

janeiro 11, 2010

São pouquíssimos os textos que escrevi de 2005 ou 2006 para trás que posso ler atualmente sem me sentir um tonto. Quase todos expressam tamanha distância do mundo real que chega a ser surpreendente o quanto mudei em tão pouco tempo. Eu espero que a posteridade leve em conta que, mais novo, eu era bastante desorientado. Ademais, que não se tente achar ali quase nenhuma semente de ideias posteriores, porque não as há.

A palavra tem adquirido para mim um valor diferente de lá para cá. Daí a diminuição considerável na frequência de meus escritos públicos. Não se trata mais de comunicar qualquer ideia momentânea só porque é possível apagá-la depois, mas sim de pensar, pensar muito antes de escrever e mais ainda antes de divulgar.

Outro fato curioso é que sem a leitura desses textos antigos, tenho a impressão de que sempre pensei nas coisas da maneira como penso hoje. Por isso a importância de registrar para si mesmo, em vez de expor aos outros; há coisas que pedem discrição. Uma delas é o pensamento ainda mal formado, que corremos o risco de descobrir estar equivocado tempos depois.


Movimento e conservação ao mandar arrumar a cama

dezembro 26, 2009

“Por que arrumar a cama se vou dormir de novo à noite?”
Era com essa frase, e suas devidas adaptações, que eu contestava na infância uma série de ordens maternas. Não via sentido em tarefas repetitivas e rotineiras, principalmente as que se estendiam para o resto da vida. É evidente que isso incluía comer, dormir, tomar banho, escovar os dentes. O leitor não se preocupe, que a imposição de minha mãe me impediu de subir aos degraus mais baixos do desasseio. Enrolações e argumentações eram inúteis; tomava para mim que meus pais eram imunes à voz da razão. Da minha razão, ao menos. Continuar lendo.


Dois

novembro 18, 2009

Luís chegou em casa e cumprimentou Amanda com um beijo. O dia no trabalho fora cansativo, como são quase sempre os dias no trabalho para todo mundo. A diferença é que tinha uma casa que era seu oásis, onde recarregava as energias, meditava sobre os dias passados e planejava os que viriam. Quase sempre, fazia chegar à mulher seus pensamentos, ouvia atentamente seus juízos e refletiam juntos sobre alguns problemas em comum. Foi o que aconteceu naquele dia, na cozinha, enquanto ela preparava o lanche.

- Não é fácil se encaminhar à superação e formar uma família diferente do comum quando os parentes não fazem a menor ideia do que significam nossos propósitos. Ainda não consegui esquecer o problema do último domingo…

Seu temperamento agitado era logo chamado ao equilíbrio pelas doces palavras de Amanda: Continuar lendo.


Sófocles – Édipo Rei

novembro 2, 2009

(Update: Se chegou aqui pelo Google, não deixe de ler este post também.)

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Sófocles – Édipo Rei
(link em inglês)

A leitura de um clássico sempre leva ao entendimento, entre outras coisas, da própria importância da leitura dos clássicos. São obras que se direcionam a questões profundas e universais com imagens muito bem construídas, levando a gratas reflexões. Eis algumas das que fiz ao ler Édipo Rei, de Sófocles. A ambos servem: quem conhece e quem nunca leu a peça. Continuar lendo.


Santos de tantos amores

outubro 26, 2009

Santos cidade de tantos
Amores e tantos prantos;
De heroicos bravos Andradas
Que desbravaram estradas
De liberdade e justiça
Para a nação insubmissa.
Santos de seu fundador
Brás Cubas. Nobre senhor,
Fez o Porto e a Casa Santa
De Misericórdia tanta.

“Santos” – de ouvir me agiganto
Que são tantos teus encantos.
Tuas glórias estão provadas
Nas tuas histórias contadas;
Nunca à Pátria foi omissa,
Nunca cedeste à preguiça.
És do povo de valor,
Monumento ao pátrio amor;
És da beleza que encanta;
És a nossa Terra Santa.


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