Literatura e conhecimento

Literatura e conhecimento
para o Grupo de Estudos Jusfilosóficos da UNISANTOS

Introdução
Com a organização do presente estudo, minha intenção é apresentar uma forma de leitura das obras de literatura que tenho adotado com algum êxito e, ao levantar algumas reflexões que me são novas, aperfeiçoá-la, em proveito próprio e dos demais participantes.

Seja no Ensino Fundamental ou no Médio, a literatura é apresentada aos alunos de tal maneira que grande parte deles vai nutrir profunda repulsa ou notada indiferença pelas obras. Primeiro porque não lhes é preparada a alma para receber o aporte riquíssimo de elementos que os grandes autores, aprofundados nas matérias da vida humana, observaram e deram a conhecer em suas obras; e segundo porque o objetivo do professor é fazê-los memorizar as principais questões do vestibular.

Excluindo as leituras por deleite, todas as demais têm o propósito de acrescentar algo de útil à vida do leitor. Não seria diferente com as grandes obras da literatura: são elas retratos de tipos psicológicos, com suas paixões e sentimentos, suas deficiências e virtudes.

Cada personagem literário nos diz algo. Cabe a nós entender suas motivações, recriando seu estado interno e – por fim – julgando se aquele comportamento tem algo a acrescentar ao nosso. Em suma, se é bom ou mau o exemplo do personagem. Pensar como Hamlet, como o Guilherme de Baskerville d’O Nome da Rosa ou como Gregório de Matos vai nos dar experiências de vida pelas quais não precisamos passar para aprender o que eles aprenderam – e até o que eles deveriam ter aprendido mas não foram capazes. Ademais, ajudará não apenas no autoconhecimento, mas na identificação de pessoas que conhecemos e que se assemelham a um ou outro.

Quase sempre, as consequências que o autor reserva ao personagem dizem algo sobre sua intenção ao escrever a obra; sob esse ponto de vista, é importante notar se teve um final bom ou ruim. Quando Brás Cubas termina sem casar, sem filhos, sem ser ministro e sem ter precisado “ganhar o pão com o suor da fronte”, é como se Machado nos apontasse o resultado de se encarar a vida como o defunto-autor. É possível concordar com um autor (“um personagem dessa modalidade teria esse fim”) ou discordar (“alguém assim enfrentaria consequências diferentes); mas aí entramos já no campo de separar os bons escritores dos ruins.

O que proponho para esta reunião e para os seguintes não é nem tão fácil nem tão difícil quanto parece. Requer prática, é verdade, e paciência. Mas assim como a alfabetização começa pelas frases curtas e simples com auxílio do professor, evoluindo até as mais complexas, o estudo que faremos começará por trechos curtos com auxílio mútuo (como é característico deste grupo de estudos), para que futuramente todos sejam capazes de “se transformar” temporariamente em Hamlet, Don Quixote, Castro Alves, e voltar a si mesmo no final da leitura com novas experiências. Em última análise, a literatura nos possibilita aprender pela experiência alheia, pois uma única vida não é longa o suficiente para passarmos por todas as situações possíveis de aprendizado.

I. Literatura e Filosofia

A literatura, tal como entendida por Olavo de Carvalho em suas exposições sobre os Quatro Discursos de Aristóteles, é a captação sensível da realidade. O escritor relata experiências em seus personagens, pelas quais ele mesmo pode ou não ter passado, e os coloca para viver conforme seu entendimento de realidade. Então, se estamos falando de um autor que entende a vida com uma perspectiva otimista, será essa a mensagem; se é um cético que acredita no “acaso”, será essa a força que regerá os acontecimentos da sua realidade; e assim por diante. Cabe a nós concordar ou não.

Assim, a literatura é uma recriação da realidade tal como compreendida pelo autor, ainda quando ela apela ao fantástico – como a interação dos deuses e mitos com o Vasco da Gama de Camões, pois o interesse não é fazer um registro histórico, e sim levar ao leitor as impressões e sensações dos personagens (ou do próprio autor), com o objetivo de comovê-lo, incitá-lo a esta ou aquela ação. Dessa captação sensível é que vão surgir as reflexões. Assim entendemos os versos de Alberto Caeiro:

“Eu não tenho filosofia: tenho sentidos…
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso”
(in Guardador de Rebanhos, II – 1914)

Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa) faz, logo após essas linhas, a defesa da não-reflexão, como se bastasse ao homem permanecer na arte poética das possibilidades, prescindindo das demais. É evidente que não é esse o propósito do grupo, então tomaremos como ponto de partida essa admissão de Caeiro: na literatura, não existe ainda filosofia, ou existe apenas uma pré-filosofia. Teremos em mente que o poeta diz: “isso é o que eu sinto, vejo, percebo” – ou, em outros casos, “isso é o que meu personagem sente, vê, percebe”. Pensaremos que um autor diz: “essa pessoa, diante dessa situação, reage dessa forma”. Com isso, usaremos sempre da nossa experiência individual, dos conhecimentos que temos, para julgar a história e aprender com ela: eu conheço pessoas como esse personagem? realmente essa reação é a mais pertinente? eu sou assim? é bom ser assim? essa sensação é boa ou ruim? como agir diante dela?

II. Literatura Brasileira
“Interrogando a vida brasileira e a natureza americana, prosadores e poetas acharão ali farto manancial de inspiração e irão dando fisionomia própria ao pensamento nacional.”
(Machado de Assis – Instinto de Nacionalidade)

A literatura assume características nacionais quando seus personagens (ou autores) são nitidamente regionais em seus pensamentos, atos e palavras, mesmo quando lidam com situações universais. Assim, que sirva de simplificado exemplo um tema bem amplo e comum a todos os seres humanos: o amor. Ingleses, italianos, espanhóis e brasileiros certamente veem esse sentimento de forma diferente. Enquanto uns vão associá-lo à possessividade, outros vão ligá-lo às formas mais instintivas, à angústia de não ser correspondido ou talvez a um sentimento sublime capaz de fazer o homem suportar as maiores dificuldades. Pois são essas visões características que formam uma literatura nacional, e foi esse o intuito de Machado de Assis para o Brasil.

É evidente que não existe apenas um tipo brasileiro, senão vários. Da mesma forma, não são todos iguais os norte-americanos, os portugueses ou os russos. Porém, existem características mais afloradas em cada um desses povos: qualidades em comum, conceitos, deficiências psicológicas. Procuraremos por isso nas obras nacionais que analisaremos. Veremos como cada autor entendeu a alma brasileira e a realidade dos fatos e suas consequências. Depois, julgaremos se estão corretos, com humildade e honestidade, do ponto de onde nossos conhecimentos permitirem.

III. Literatura e eu
A formação individual como homens livres requer conhecer o máximo possível de si mesmo, dos semelhantes, da realidade. Se podemos aprender com os grandes autores da literatura, refletindo por cima de tudo que observaram, perceberam e refletiram eles mesmos, então esse estudo já vale à pena. Nos livros, encontraremos questionamentos que nunca nos fizemos, e teremos a oportunidade de tentar resolvê-los com a ajuda do autor, misturando a tudo isso nossa própria experiência acumulada até agora. Quanto mais livros lemos, mais elementos temos para melhorar nossa compreensão.

Quem não aprende sobre o ciúme com Dom Casmurro ou sobre o cientificismo exagerado com O Alienista? Sobre a paixão adolescente e irresponsável com Romeu & Julieta? Sobre o engano e a impostura com O Homem que Sabia Javanês ou sobre um amor ingênuo à própria pátria com O Triste Fim de Policarpo Quaresma?

Seja no íntimo dos personagens ou no desenrolar dos fatos, cada obra literária é a representação de uma realidade possível, de onde podemos extrair muitas reflexões capazes de mudar nosso destino em direções mais felizes. Daí a importância do tema.

Uma resposta para Literatura e conhecimento

  1. gabpattz disse:

    Olá! Tudo bem?
    Você gosta de ler né? Eu também adoro. Mas enfim, eu queria te convidar para entrar no meu blog e ler a minha história.
    Então leia e se gostar me ajude a divulgar para todos!
    Muito obrigada! 1000beijinhos e eu te espero lá!

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