Eu estudava na escola mais cara do meu bairro, uma das melhores da cidade. Meu pai era funcionário de alto escalão de uma grande empresa – o que rendeu à família mudanças constantes de cidade e a mim, uma repetência. Sendo o mais velho da turma, cheguei antes na idade em que os meninos começam a se dividir entre os metidos a valentões e os tachados de covardes. As meninas podem ser populares extrovertidas ou esquisitas e ignoradas.
Sempre fui político, de boa movimentação entre os diversos grupos, o que me alçou à condição de valentão. Digo melhor: de boa aparência e habilidade nos esportes, eu era o líder dos valentões.
Havia um casal de recém-chegados à escola; ele um covarde, ela esquisita. Não passava uma semana sem que alguém articulasse uma brincadeira para expor um dos dois, quando não ambos, ao ridículo. Eu raramente participava, mas também não exercia minha liderança para poupá-los da situação. Eu era um déspota esclarecido: no meu reinado absoluto não existiam massacres.
Perto do fim daquele ano, encontrei esse casal fora da escola. Meu pai havia sido convidado por um amigo a passar o dia no clube e nos levou para aproveitar a piscina e as quadras. Este amigo de meu pai é pai do covarde. Ou da esquisita, não lembro. Fato é que estavam lá ambos.
A situação era surpreendente. Em poucos minutos, descobri que o covarde era no clube líder dos valentões. A esquisita era a mais popular e cobiçada. O garoto notou minha surpresa e veio até mim:
- Aqui as coisas são bem diferentes da escola, não?
Ele tinha razão. O garoto me superava em dois séculos de história política: era um democrata benquisto por todos, suas sugestões eram apoiadas com entusiasmo e suas opiniões ouvidas com sincero respeito. Na escola, eu só via de meus súditos temor reverencial. Diante de meu espanto, como quem acaba de vislumbrar o futuro e se sente ultrapassado, ele ainda completou:
- Para ser popular, você depende do povo.
A escola não era lugar para ele. O clube não era lugar para mim.